O livro Flores Vermelhas em Noites Azuis, do advogado, escritor e acadêmico Moisés Reis, está saindo em nova edição – revista, ampliada e melhorada.
Os textos que compõem a segunda edição da obra explanam temas relevantes, sempre remissivos aos problemas que cada época impõe.
São textos breves, cuja historicidade reflete um determinado momento sociocultural em que foram escritos.
Quanto à temática, identificam-se na obra dois grupos de artigos.
O primeiro, que constitui a grande maioria dos textos, abarcam temas da esfera social, política e econômica.
O segundo grupo reúne artigos de tom mais subjetivo, de natureza abstrata ou metafísica que envolvem questões sobre a condição universal do homem.
A nova edição está sendo publicada pela Bienal Editora.
O autor
Moisés Reis é advogado, mestre em Direito Internacional, Econômico e Tributário pela Universidade Católica de Brasília.
É profissional atuante, com desempenho ativo na Justiça local e perante os Tribunais do país.
Tem larga experiência na área pública, onde exerceu diversos cargos, com destaque para os de Secretário de Fazenda do Estado do Piauí; Deputado Estadual; Procurador Geral do Município de Teresina e Secretário Geral do Tribunal de Justiça do Piaui.
Publicou, entre outros, os livros Olhos de Argos e Constitucionalismo e Profecia em Roberto Campos: O Liberal e o Liberalismo na Constituição de 1988.
Durante vários anos, atuou na imprensa local, publicando artigos e ensaios em jornais da Capital.
É sócio do Instituto Histórico de Oeiras e membro da Academia Piauiense de Letras.

Advogado e acadêmico Moisés Reis.
A travessia para a democracia
Zózimo Tavares (*)
Abertura, hoje, é uma palavra banal e praticamente esquecida na cena política brasileira. Mas ela já teve um peso fundamental, inquietante e decisivo na vida e no destino do país.
Há 45 anos, o Brasil procurava, a duras penas, sair de uma ditadura militar para uma democracia.
Os militares, que detinham o poder desde 1964, falavam em uma distensão lenta, gradual e segura do regime.
De fato, essa distensão, também chamada de abertura, se processava de forma lenta e gradual, mas não segura.
Havia riscos iminentes de retrocessos, como ocorrera em 1968, quando o regime fechou de vez e o país caiu em uma longa noite de trevas que durou dez anos.
O império do AI-5
É dessa época o Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5, que deu aos militares poderes ilimitados de mandos e desmandos.
Por meio desse Ato Institucional, fora proibida a garantia de habeas corpus em casos de crimes políticos.
Através do AI-5, o governo decretou também o fechamento do Congresso Nacional, pela primeira vez, desde 1937 (Estado Novo).
O Ato autorizou ainda o presidente a decretar estado de sítio por tempo indeterminado, demitir pessoas do serviço público, cassar mandatos, confiscar bens privados e intervir em todos os estados e municípios.
E, finalmente, por meio do AI-5, o regime militar decretou a censura aos meios de comunicação e às artes, além de adotar a tortura como ações comuns.
Queda de braço
Uma década depois da aplicação implacável do AI-5, o Brasil esperneava para respirar liberdade.
Nas ruas, era grande a pressão pela abertura do sistema, que estava dividido.
Uma parte, a liderada então pelo general João Figueiredo, o último presidente militar, era liberalizante e queria devolver o país ao poder civil.
A outra parte, comandada pelo general Sylvio Frota, ex-ministro do Exército, era linha-dura e queria os militares no poder por mais tempo, mandando a qualquer custo.
O clima era de muita tensão, afinal, eram tempos de desconfiança, angústia, revolta e pavor. E de alguma esperança.
A distensão
Foi nesse terreno minado, cheio de lodo, trevas e precipícios, que um brasileiro, o senador Petrônio Portella, se aventurou a movimentar-se teimosamente em busca de luz e terra firme – no caso, a democracia.
E o fazia com invulgar tato, extraordinária habilidade e insuperável desenvoltura política que estava alcançando, uma a uma, as metas planejadas.
Primeiro, ele procurou abrir caminho para a redemocratização como presidente do Congresso Nacional, ainda no governo do general Ernesto Geisel (1974-1979), que iniciou o processo de abertura.
No final do mandato presidencial, estava sepultado o tormentoso AI-5.
O sol da liberdade
Depois de ver enterrado o AI-5, Petrônio Portella ampliava seu raio de ação já como ministro da Justiça, no governo do presidente João Figueiredo (1979-1985).
O general assumiu o poder, em 15 de março de 1979, prometendo fazer do Brasil uma democracia.
Ou seja, o próprio presidente da República reconhecia publicamente, de viva voz, que o país não era democrático.
Petrônio assumiu o papel de coordenador político do governo.
O fim da censura e a anistia
Com pertinácia e determinação, já nos primeiros meses do novo governo, o ministro da Justiça conseguia, através do diálogo, o fim da censura e a aprovação da Lei da Anistia, sancionada pelo presidente em 28 de agosto de 1979.
Com a anistia, 4.650 brasileiros punidos por atos de exceção, desde o início dos governos militares, estavam sendo beneficiados.
Eram pessoas que haviam sido cassadas, banidas, exiladas ou mesmo destituídas de seus empregos públicos.
A anistia trazia de volta ao Brasil dezenas de exilados. Entre eles, estavam Leonel Brizola, Miguel Arraes, Darcy Ribeiro, Márcio Moreira Alves, Luís Carlos Prestes e Fernando Gabeira.
As reformas
O ministro da Justiça tocava também a reforma partidária, pondo fim à camisa de força do bipartidarismo e abrindo caminho para o o retorno do pluripartidarismo.
Daí nasciam, naquela época, o PDS, o PMDB e o PP e, a seguir, o PT, o PTB e, depois, o PDT.
As diferentes correntes de pensamento que se acotovelavam em apenas duas siglas – a Arena governista e o MDB oposicionista – podiam, enfim, defender livremente suas ideias e respirar em outras legendas.
Muitas outras reformas estavam por ser feitas, sob a coordenação do ministro Petrônio Portella, como o restabelecimento das eleições diretas para governador, em 1982.
O silêncio
No dia 4 de janeiro de 1980, porém, ele sentiu-se mal quando visitava Santa Catarina.
Na tarde do dia seguinte, um sábado, após receber atendimento médico de urgência, voltou às pressas para Brasília.
Desembarcou caminhando. Até deu entrevista. Mas estava abatido e muito pálido.
Avaliou, no entanto, que o mal-estar era passageiro e não procurou um hospital. Optou por ser medicado em casa.
Tudo ia relativamente bem quando, na tarde de domingo, o estado de saúde do ministro agravou-se repentinamente.
Ele foi transferido em ambulância para o Hospital Santa Lúcia, às 15h35.
Estava desacordado. Os médicos passaram aproximadamente uma hora tentando reanimá-lo.
A morte do ministro foi anunciada oficialmente no início da noite de 6 de janeiro de 1980.
Sol do meio dia
Acabava ali a sua caminhada, que chegava ao fim antes de alcançar a linha de chegada.
O Brasil se cobria de luto com um manto de incertezas no campo político.
Poucos dias depois, o ministro Ibrahim Abi-Ackel, sucessor de Petrônio na pasta da Justiça, inaugurava a foto do antecessor na Galeria do Ministério da Justiça com esta frase:
– Petrônio foi um sol que parou ao meio-dia.
Este é, em resumo, o brasileiro cujo centenário de nascimento está sendo lembrado agora.
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(*) Jornalista e escritor. Autor dos livros “Petrônio Portella”, publicado pelo Senado Federal, em 2010, como Volume 7 da Coleção Grandes Vultos que Honraram o Senado, e de Petrônio Portella – Uma biografia, editado em 2012.

Capa do Jornal da República, um dos mais influentes à época.
Fatos que marcaram passagem pelo Governo do Piauí
Zózimo Tavares (*)
Três episódios políticos marcaram, fundamentalmente, a passagem de Petrônio Portella pelo Governo do Piauí, entre 1963 e 1966.
Logo no início do mandato, ele enfrentou uma sublevação dos oficiais da Polícia Militar.
Os militares se rebelaram porque o governador não atendeu a reivindicação deles por aumento no soldo da categoria.
Petrônio jogou duro com os oficiais: não dialogou com eles nem aceitou suas imposições.
Enfrentou a sublevação com a ajuda do Exército e os líderes do movimento foram presos.
Audiência com Kennedy
Outro momento marcante foi o encontro do governador do Piauí com o maior líder mundial de então, o presidente John Kennedy, dos Estados Unidos.
O governador piauiense foi recebido no Salão Oval da Casa Branca, onde se localiza o gabinete do presidente norte-americano.
Um feito inédito. Antes e depois disso, os governadores do Piauí que viajam ao exterior jamais foram recebidos em audiência reservada por um chefe de Estado da projeção internacional de Kennedy.
Nessa audiência, o governador assegurou investimentos no Piauí com recursos norte-americanos.
O presidente dos Estados Unidos foi assassinado em 22 de novembro de 1963, em Dallas, mas os acordos feitos foram cumpridos e os investimentos se realizaram através do programa “Aliança para o Progresso”.
Os recursos recebidos de Washington possibilitaram muitas ações governamentais no Piauí, naquele período, sobretudo no setor educacional, significado o desenvolvimento de sua rede de ensino.
À época, a taxa de analfabetismo no Piauí chegava a 49% e a de evasão escolar alcançava escandalosos 94%.
Guinada em 64
O momento de maior repercussão do período de Petrônio Portella no governo estadual, foi, entretanto, a irrupção do golpe militar de 1964.
No primeiro instante, o governador manifestou-se enfaticamente em defesa do presidente deposto João Goulart, a quem recebera há pouco tempo em Teresina.
Em pouco mais de 24 horas, ele mudou radicalmente de posição e passou a apoiar o novo regime.
Com isso, desviou-se do destino dos governadores que, como ele, se posicionaram contra os militares e acabaram cassados e presos.
A muito custo Petrônio conseguiu equilibrar-se no fio da navalha daí por diante.
Para tanto, teve que praticar acrobacias e contorcionismos políticos impressionantes. (Segue)
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(*) Jornalista e escritor. Autor dos livros “Petrônio Portella”, publicado pelo Senado Federal, em 2010, como Volume 7 da Coleção Grandes Vultos que Honraram o Senado, e de Petrônio Portella – Uma biografia, editado em 2012.
TELLA – 100 ANOS (Parte 3)
Governador através de aliança impossível
Zózimo Tavares (*)
A inesperada vitória do deputado estadual Petrônio Portella para prefeito de Teresina, nas eleições de 1958, ocorreu em uma conjuntura político-familiar para lá de delicada.
Em 1958, eram realizadas também as eleições estaduais.
O candidato a governador pelo PSD (o partido do governo), era o professor Dedé Gayoso, filho do ex-governador Pedro Freitas e sobrinho do governador Gayoso e Almendra.
O candidato governista era, portanto, cunhado de Petrônio, candidato a prefeito justamente no palanque das oposições.
Naquele pleito, a UDN de Petrônio havia se aliado ao PTB, que apresentou como candidato o deputado federal Chagas Rodrigues.
Resultado: ambos, Chagas e Petrônio, foram eleitos pela chapa batizada de “Oposições Coligadas”.
Juntando água e óleo
Nas eleições seguintes, em 1962, a situação partidária no Piauí já havia assumido outra configuração: a UDN era minoritária; o PSD, o maior partido e o PTB, a terceira força.
Quando a campanha eleitoral chegou, Petrônio já havia rompido com o governador Chagas Rodrigues.
O candidato do governador à sua sucessão era o deputado estadual Constantino Pereira, do PSD.
Petrônio candidatou-se ao Governo do Piauí. E costurou uma aliança que parecia impossível.
Em seu palanque estavam expressivas lideranças do PSD – o partido antagônico da UDN –, dissidentes do PTB e líderes de outros partidos pequenos.
Contava também com o apoio do governador Tibério Nunes, que assumiu o governo com a renúncia de Chagas para ser candidato a senador.
Dizia-se nos meios políticos que Petrônio havia misturado água e óleo. E foi assim que ele se elegeu governador do Piauí. (Segue)
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(*) Jornalista e escritor. Autor dos livros “Petrônio Portella”, publicado pelo Senado Federal, em 2010, como Volume 7 da Coleção Grandes Vultos que Honraram o Senado, e de Petrônio Portella – Uma biografia, editado em 2012.
O líder da oposição namora a filha do governador
Zózimo Tavares (*)
Petrônio Portella começou sua carreira política como candidato a deputado estadual, nas eleições de 1950, pela União Democrática Nacional (UDN).
Não se elegeu, mesmo com seu pai, Eustáquio Portela, sendo prefeito de Valença do Piauí, à época um dos maiores municípios do Estado.
Na condição de suplente, foi convocado em diversas ocasiões para exercer o mandato na Assembleia Legislativa, por articulação da UDN.
Nas eleições seguintes, em 1954, elegeu-se deputado estadual.
Quando esteve na Assembleia, liderou a bancada da oposição.
Ao mesmo tempo, namorava a filha do governador Pedro Freitas (1951-1955), Iracema de Almendra Freitas, com quem viria a casar-se.
Contudo, seus novos laços de família não o levaram a arrefecer a vigilância sobre os rumos do governo. Para tanto, a esposa colaborou decisivamente, como relatou o senador Bernardino Viana:
– Ela procurou pôr cada coisa no seu devido lugar, separando muito bem as ternuras do amor das lutas políticas.
Prefeito de Teresina
Nas eleições de 1958, Teresina se preparava para eleger o sucessor do prefeito Agenor Almeida, um dos melhores administradores da capital.
O candidato favorito à sucessão do prefeito era Chrysippo Aguiar, irmão do ex-governador e ex-senador Eurípides de Aguiar, figura de longa e marcante atuação política no Piauí.
A UDN mirou na candidatura do professor Valter Alencar para concorrer ao pleito, mas ele não aceitou ser candidato.
O partido bateu, então, à porta do deputado Petrônio Portella, que entrou na disputa muito mais para cumprir uma missão partidária, praticamente sem chance de vitória. Mas acabou eleito. (Segue).
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(*) Jornalista e escritor. Autor dos livros “Petrônio Portella”, publicado pelo Senado Federal, em 2010, como Volume 7 da Coleção Grandes Vultos que Honraram o Senado, e de Petrônio Portella – Uma biografia, editado em 2012.
O arquiteto da abertura
Zózimo Tavares (*)
Há 100 anos, nascia o piauiense de maior projeção no cenário político nacional no século 20, Petrônio Portella.
Ele teve uma carreira clássica ascendente. Elegeu-se deputado estadual, na década de 1950, foi prefeito de Teresina e governador do Piauí.
Senador da República duas vezes e também duas vezes presidente do Congresso Nacional (1971 – 1973 e 1977 – 1979).
Em setembro de 1978, sob sua presidência, o Congresso aprovou a Emenda Constitucional nº 11, revogando os Atos Institucionais implantados pelo Regime Militar, inclusive o pavoroso AI-5.
Em 15 de março de 1979, tomou posse no cargo de ministro da Justiça e assumiu a coordenação política do governo.
Faleceu no dia 6 de janeiro de 1980, em Brasília, no auge de sua carreira política.
Estava empenhado na transição do regime militar para a democracia, através do diálogo com todas as correntes políticas e com a sociedade civil.
Entrou para a história como “Arquiteto da abertura”.
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Petrônio Portella Nunes nasceu em Valença do Piauí, em 12 de setembro de 1925.
Filho de Eustáquio Portella Nunes e Maria de Deus Ferreira Nunes. Era o sexto descente, numa prole de 12 irmãos.
Iniciou seus estudos na terra natal. Mais tarde, foi aluno do Colégio Diocesano, em Teresina.
Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.
Na faculdade, deu os primeiros passos na política, como um dos líderes mais atuantes da Reforma.
Toda a atividade política dos jovens universitários de então se fazia em torno do CACO – Centro Acadêmico Cândido de Oliveira.
O Brasil acabara de derrubar a Ditadura Vargas e engatinhava no rumo da redemocratização.
Comunicativo e persuasivo, o jovem Petrônio assumiu no CACO o posto de diretor do jornal A Crítica, uma tribuna dos universitários.
Por esse tempo, foi também diretor de Publicidade da UNE (União Nacional dos Estudantes).
Como líder estudantil, Petrônio conseguiu unir liberais e esquerdistas.
A partir daí transformou a sua vocação em missão de toda a sua existência. (Segue)
(*) Jornalista e escritor. Autor dos livros “Petrônio Portella”, publicado pelo Senado Federal, em 2010, como Volume 7 da Coleção Grandes Vultos que Honraram o Senado, e de Petrônio Portella – Uma biografia, editado em 2012.
História do senador é contada em três biografias
Zózimo Tavares (*)
A vida pessoal, a atuação profissional e a carreira pública do ex-senador Dirceu Arcoverde são contadas em três livros biográficos.
O primeiro, “A eleição de um líder”, tem como foco a campanha eleitoral de 1978 para o Senado no Piauí e trata também do ingresso do médico na vida pública. A obra foi publicada logo após as eleições.
O segundo, “Dirceu Arcoverde: Missão cumprida”, conta a trajetória profissional do ex-governador e narra a agonia vivida pelos piauienses durante a semana de internação do senador, em Brasília, logo após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC) na tribuna do Senado.
O livro saiu em 1982 e narra o clima de comoção pública que se abateu sobre o Piauí após o falecimento de Dirceu Arcoverde. Também aponta as consequências do fato para a política estadual.
Estes dois livros foram escritos pelo jornalista e advogado José Lopes dos Santos (1919 – 2006), no calor dos acontecimentos, e as edições estão esgotadas.
Nova biografia
Em 2019, na passagem dos 30 anos do falecimento do senador, escrevi o livro “Dirceu Arcoverde – Esperança interrompida”.
A obra está sendo relançada agora, no centenário de nascimento do biografado.
O livro, ilustrado com imagens da época e depoimentos dos contemporâneos, traça a trajetória profissional e política do senador, desenhando o contexto político da época. E publica na integra seu histórico discurso no Senado.
(*) Jornalista e escritor, membro da Academia Piauiense de Letras.

Capas dos livros biográficos escritos por José Lopes dos Santos e Zózimo Tavares/Imagens: Acervo Bienal
Morte do senador surpreende e choca piauienses
Zózimo Tavares (*)
O inesperado falecimento do senador Dirceu Arcoverde, aos 53 anos e com apenas 44 dias de mandato no Congresso Nacional, foi um choque para os piauienses.
A surpresa maior, entre familiares e amigos, se dava pelo fato de que ele, como médico, cuidava bem da própria saúde.
Assim, cumpria voluntariamente uma dieta espartana: não bebia, não fumava, não tomava café e sua alimentação era das mais equilibradas.
Além disso, fazia caminhada diária de uma hora e se apresentava sempre muito sereno.
Tensão na véspera
O deputado federal Paulo Ferraz (1919 – 1981) foi o último político a almoçar com Dirceu Arcoverde, no restaurante do Congresso Nacional:
– Fui por insistência dele, que desejava muito – conforme disse – conversar comigo. Como sempre, quase nada comeu. Enquanto eu me deliciei com um prato de muito gosto, ele pediu posta de peixe, da qual comeu apenas a metade, com uma pequena porção de “pirê”, completando a refeição com meio copo de água mineral. Concluímos o almoço a uma hora e quarenta minutos, quando ele foi para o gabinete e eu saí para casa. Mostrava-se preocupado com o discurso que ia proferir, dali a instantes, na tribuna do Senado, sobre problemas da saúde. Disse que havia dado tudo de si para realizar uma boa estreia.
O AVC na tribuna do Senado
Após o Acidente Vascular Cerebral (AVC) que sofreu na tribuna, na tarde daquele 9 de março de 1979, Dirceu ficou internado na UTI do Hospital do Ipase, em Brasília.
O quadro era sombrio, apresentando-se como irreversível.
A partir daí os jornais de Teresina davam manchetes diárias sobre a delicada situação do senador.
O jornalista e escritor José Lopes dos Santos registrou, em seu livro Dirceu Arcoverde – Missão cumprida”, publicado logo após a morte do senador:
“Quem viu, pela televisão, suas fotografias falando no Senado, constatou que ele perdeu o controle de uma das mãos, passando a gesticular com a outra, até concluir o discurso, quando não tombou por ter sido amparado a tempo”.
Levado às pressas para o hospital, o senador foi operado para a retirada do coágulo que se formara com o AVC.
A esperança por um fio
O escritor contou, ainda, com base nas informações recebidas de Brasília, como secretário de Governo – portanto, com acesso a informações privilegiadas:
“O doente passa normalmente, dentro das condições atuais de saúde. Há esperanças“.
Em outro registro, José Lopes dos Santos observa:
“Todas (as esperanças) em vão. A partir das 4 horas da manhã do dia 16, a pressão arterial descontrola-se e fica oscilando violentamente”.
O senador viria a falecer às 10h20, enlutando o Piauí. Era uma sexta-feira.
A despedida
O corpo do senador chegou a Teresina no começo da noite. A cidade era tomada por um clima de comoção pública.
Chovia e me recordo que houve o comentário: “Até o céu chorou pelo Dr. Dirceu!” (Continua…)
(*) Zózimo Tavares é jornalista e escritor. Autor da biografia “Dirceu Arcoverde – Uma esperança interrompida”.
No Senado, um mandato de apenas 44 dias
Pelas voltas que a política dá, Dirceu Arcoverde enfrentou nas urnas, nas eleições de 1978, seu ex-chefe Alberto Silva, de quem fora secretário de Saúde e sucessor no governo, a partir de 1975.
Por essa época, Alberto já se projetava como um mito político, depois de realizar um governo revolucionário no Estado.
Somente um político com o perfil de Dirceu, também realizador, popular e de espírito pacato e conciliador, dado ao diálogo, seria capaz de enfrentá-lo nas urnas com alguma chance de vitória.
Arena dividida
Naquele pleito, Dirceu concorreu pela Arena-1, recebendo todo o suporte da máquina partidária e do governo estadual.
Alberto Silva, candidato da Arena-2, recebeu o apoio dos dissidentes governistas – que não eram muitos – e do MDB, que não teve forças para lançar candidato próprio.
Nessa época, só havia dois partidos políticos no Brasil, a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o MDB.
E havia a sublegenda. Cada um desses partidos podia se dividir até em três. Isso favorecia enormemente o partido do governo. A maioria dos políticos de então se acotovelava na Arena, para ficar à sombra do poder.
Disputa acirrada
A crônica política registra que a disputa entre Alberto Silva e Dirceu foi uma das mais acirradas da história eleitoral do Piauí.
Teresina era incontrolavelmente albertista e, assim, hostil ao candidato a senador apresentado pelo esquema governista.
Mas Dirceu acabou vencendo o pleito por uma vantagem de 30.211 votos. Ele totalizou 290.218 votos (52,75% da votação total) e Alberto conseguiu 260.007 votos (47,25%).
AVC na tribuna do Senado
Mas o que parecia uma carreira política promissora teve fim precocemente.
O senador faleceu no 44º dia de seu mandato popular de 8 anos, depois de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC) quando fazia seu discurso de estreia no Senado.
Tinha 53 anos, seis meses e nove dias de vida.
Derrotado vira senador
O inesperado falecimento de Dirceu Arcoverde mudava radicalmente o curso da política no Piauí.
Outra vez, pelas voltas que a vida dá – ou a morte –, o ex-governador Alberto Silva assumiu sua cadeira no Senado, por ter sido o segundo candidato mais votado da Arena.
Alberto cumpriu todo o mandato e, quando já estava no fim da legislatura, elegeu-se governador, em 1986, depois de ter sido derrotado nas eleições governamentais de 1982. (Continua…)
(*) Zózimo Tavares é jornalista e escritor. Autor da biografia “Dirceu Arcoverde – Uma esperança interrompida”.

Dirceu Arcoverde em campanha para o Senado, em 1978. Comício no então povoado São João da Varjota, em Oeiras/Imagem: Acervo da Fundação Nogueira Tapety
Zózimo Tavares (*)
Um governador de muitas obras
Dirceu Arcoverde foi o sucessor de Alberto Silva e governou o Piauí de março de 1975 a agosto de 1978.
Seu governo deixou um grande acervo de obras públicas, em todas as áreas, mantendo o ritmo frenético de realizações inaugurado pelo seu antecessor.
Dirceu preocupou-se, fundamentalmente, com abastecimento de água, energia elétrica, habitação popular, educação e transporte.
Água até o ano 2000
O novo sistema de água de Teresina considerado à época a maior obra pública do Piauí, depois da hidrelétrica de Boa Esperança, foi construído em seu governo e inaugurado pelo presidente Ernesto Geisel.
Também construiu o Centro de Convenções de Teresina, a primeira etapa do Centro Administrativo do Piauí, a Penitenciária Agroindustrial Major César Oliveira (modelo nacional), a Ceasa, a sede da Cohab (hoje ADH) e o Verdão, além de dezenas de Centros Sociais Urbanos (CSU’s) em todo o Estado e da Colônia de Férias do Iapep, em Luís Correia.
Habitação e energia
Um relatório apresentado no final de seu governo informava que ele construiu seis casas populares por dia, uma sala de aula de dois em dois dias, um hospital a cada 40 dias, um novo sistema de abastecimento de água a cada 26 dias e 2 quilômetros de linhas e transmissão de energia elétrica por dia.
No setor de habitação, Dirceu construiu os grandes conjuntos residenciais de Teresina, como a primeira etapa do Bela Vista, com 912 unidades; a ampliação do Parque Piauí, com 500 moradias; o conjunto Sacy, com 2.034 casas, além da primeira etapa do Itararé (hoje Dirceu Arcoverde), com 3.004 unidades, impulsionando o crescimento da cidade para a zona Sudeste da capital, hoje a maior de Teresina.
Educação e saúde
O governo Dirceu Arcoverde construiu mais de 600 salas de aula, 33 hospitais, unidades mistas e postos de saúde, sistema de energia elétrica em 38 cidades, além de quase 500 quilômetros de eletrificação rural.
Também são de seu governo o novo Quartel do Comando Geral da Polícia Militar e o Hospital da PM, no bairro Ilhotas, e o Parque de Exposição Feira-Agropecuária de Teresina, na BR-343.
Cultura e esporte
Ele foi um governante também com sensibilidade cultural e recuperou monumentos históricos, como a Igreja de São bendito e construiu a Praça- Monumento Da Costa e Silva, na Avenida Maranhão, um dos mais belos cartões postais de Teresina durante muitos anos.
Construiu a segunda etapa do estádio Albertão (fechamento do anel das arquibancadas e cobertura das cadeiras).
Foi o governador de sua geração que mais viajou pelo Estado.
Fez 290 viagens ao interior do Piauí, que à época tinha 114 municípios. Ou seja, um município foi visitado por ele a cada quatro dias. (Continua…)
(*) Zózimo Tavares é jornalista e escritor. Autor da biografia “Dirceu Arcoverde – Esperança interrompida”.

A segunda etapa do estádio Albertão construída e inaugurada por Dirceu
Zózimo Tavares (*)
Há 100 anos, nascia em Amarante um dos governadores mais realizadores da história do Piauí.
Ele faleceu precocemente aos 53 anos, depois de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC) quando fazia seu discurso de estreia na tribuna do Senado.
Por ironia do destino, seu primeiro pronunciamento no Congresso Nacional era justamente sobre saúde.
Médico e professor, Dirceu entrou para a história do Piauí como um de seus melhores quadros políticos e também um de seus mais queridos homens públicos.
Dirceu Mendes Arcoverde nasceu em 7 de setembro de 1925. Fez os primeiros estudos em sua cidade natal.
A seguir, mudou-se para Teresina, fazendo o curso ginasial no Diocesano, onde conheceu aqueles que seriam mais tarde os expoentes políticos de sua geração – Petrônio Portella, Djalma Veloso e outros.
De Teresina, foi transferido para Belém. Na capital do Pará, terminou o ensino secundário e iniciou o Curso de Medicina, que concluiu no Rio de Janeiro.
Recém-formado, ele foi aprovado em dois concursos públicos, mas decidiu voltar para o Piauí, para ficar perto da família.
De volta a Teresina, no início dos anos 1950, Dirceu Arcoverde dedicou-se integralmente à medicina e, em seguida, também ao magistério.
Foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina do Piauí, no final da década de 1960, e também um dos fundadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI), instalada em 1971.
Ele ingressou na vida pública já maduro, na faixa dos 40 anos, como secretário de Saúde do governador Alberto Silva, no primeiro mandato deste (1971 – 1975).
Sua atuação foi surpreendente, como contarei mais adiante.
(*) Jornalista e escritor. Autor da biografia “Dirceu Arcoverde – Esperança interrompida.

Secretário de Saúde, Dirceu Arcoverde (de terno claro), governador Alberto Silva e secretário de Educação, Wall Ferraz/Imagem: Acervo da Fundação Alberto Silva.