Dirceu Arcoverde – Esperança interrompida
15 15America/Bahia março 15America/Bahia 2020
Editora libera Primeiro Capítulo da biografia de Dirceu Arcoverde
5 05America/Bahia julho 05America/Bahia 2020

Francisco, um filho de mãe santa

Joca Oeiras (*)   

Aceitei o convite para ser o apresentador do livro “Atentai Bem, assim falou Mão Santa”, do jornalista Zózimo Tavares, encarando-o como uma missão a mim confiada pela Fundação Nogueira Tapety – FNT. Não nego, no entanto, que tremi nas bases, pois o Zózimo escreveu não apenas a respeito de um político vivo e atuante, mas, principalmente, por que este político se chama Mão Santa, figura emblemática e extremamente polêmica, não havendo vivente que possa, em sã consciência, dizer o contrário! 

 Como conheço o Zózimo, mesmo antes de ler o livro, tinha certeza de que a obra não seria, simplesmente, um laudatório, um exercício de puxa-saquismo explícito. Pelo mesmo motivo, sabia que o retratado seria objeto do maior respeito e consideração, isto é, sei que o autor é incapaz de desrespeitar quem quer que seja.  

Mas o Zózimo, a par do gentlemam que é, é, profundamente, jornalista e a ele é atribuida a frase: “Se o jornalista não incomoda, então não é jornalista”.  

Conto isso tudo para enfatizar que li o livro armado com todos estes preconceitos. Além de tudo, muito curioso! Assim que a obra chegou-me às mãos, procedi a uma leitura, não vou enganar ninguém, seletiva, procurando separar o que era do autor do que havia sido escrito ou dito pelo senador.  

Desde logo concluí que título do livro “Atentai bem, assim falou Mão Santa”, não poderia ser mais adequado. Na verdade, o maior feito do Zózimo foi conseguir, através de suas páginas, dar expressão verbal coerente a um discurso fragmentário e – não poucas vezes – errático do personagem principal da obra, sendo esta, para mim, a grande sacada  do autor do celebrado “Sociedade dos Poetas Trágicos”.  

Juizo de valor

Digo isto porque não considero que se trate de uma biografia, nem sequer de um escorço biográfico, muito embora o autor tenha arrolado inúmeros dados com este teor. E também, apesar de toda a evidente simpatia que o parlamentar inspira ao jornalista, este, em nenhum momento, cuida de fazer um julgamento seja do homem, seja do médico, seja do político Mão Santa.  

Como disse, não se trata disto. O Zózimo, que além de jornalista, é cordelista e possui Licenciatura em Letras (entre outras coisas), se delicia ao analisar a fala, ora pretensamente erudita, recheada de citações dos clássicos e da Bíblia, ora francamente folclórica, do personagem-tema de sua obra. Não apenas o que diz, mas principalmente os trejeitos que faz e a maneira pouco ortodoxa, para dizer o mínimo, de que se utiliza para pronunciar as palavras.  Aliás, o caráter histriônico da fala do senador é constantemente realçado pelo jornalista. Vejam: “Mão Santa não liga para a dicção, engole o ‘s’ que marca o plural, outras vezes põe ‘esses’ a mais, mastiga palavras e assim por diante”.  

É claro que, ao debruçar-se sobre a fala do “retratado”, o autor não poderia se esquivar de alguns julgamentos de valor a seu respeito, o principal deles, reiteradamente formulado, a inegável presença de espírito que, segundo Zózimo, “é um dos traços da irrequieta personalidade de Mão Santa”, reconhecendo, embora, que “se não tem uma resposta pronta para as críticas, faz ouvidos de mercador e assim vai passando”.

Ressalta, também, talvez nem fosse preciso, a originalíssima figura do senador, evidente aos olhos de quantos a conhecem, mesmo os menos avisados.  No entanto, não custa reiterar: em nenhum momento o jornalista se dispõe a julgar a atuação do político, que foi Prefeito de Parnaíba e, por duas vezes, governou o Estado do Piauí, seja no exercício destes cargos executivos, seja na sua atuação parlamentar propriamente dita, seus projetos, para além dos discursos.  

Mil discursos 

Para mim a obra se define por ser uma descrição minuciosa do peculiaríssimo linguajar de uma importante figura da República. Através das profusas – e, não raro, confusas – manifestações verbais do retratado, o autor pinta um quadro fortemente impressionista – mas, nem por isso, menos verdadeiro – do prolixo parlamentar dos (mais de) mil discursos.  

As mais acerbas críticas podem ser formuladas ao político Mão Santa, mas… atentai bem, senhoras e senhores, depois de ler o livro do Zózimo, a ninguém caberá desconhecer que se trata, o Senador Mão Santa, de um ser humano de rara grandeza.   

(Texto de apresentação do livro “Atentai bem!, assim falou Mão Santa”, de autoria do jornalista Zózimo Tavares, lançado no dia 22.01.10, às 21h, na Câmara Municipal de Oeiras, numa realização da FNT)