Por Álvaro Mota (*)

Quase dois anos atrás, em fevereiro de 2024, escrevi a respeito do livro Monsenhor Boson, missionário da educação, de autoria do desembargador federal do Trabalho, Arnaldo Boson Paes, que agora volta às lides literárias com uma obra ainda mais instigante: Therê, guia literário e afetivo de Teresina (Bienal Editora, 2025), com 190 páginas de um passeio pela história da capital do Piauí por meio de escritores.

Pelo menos dez autores são usados por Boson para descrever a cidade que o adotou, ainda adolescente, estudante do ensino médio, vindo do sertão baiano-piauiense, nascido que é na cidade de Campo Alegre de Lourdes, nas proximidades de São Raimundo Nonato.

Prosa

O livro trata em dez capítulos da descrição de Teresina através de Monsenhor Joaquim Chaves, nascido em Campo Maior, seu mais dileto e completo historiador; Abdias Neves, nascido em Teresina apenas 24 anos após a fundação da cidade; João Nonon de Moura Fontes Ibiapina, picoense que faleceu em Parnaíba; Hindemburgo Dobal Teixeira, o poeta teresinense H. Dobal, que tão bem escrevia em prosa; o barrense José de Arimathea Tito Filho, mais profícuo e apaixonado cronista teresinense; José Ribamar García, advogado e escritor, que mesmo morando no Rio de Janeiro, estreita as relações com a cidade; Oton Lustosa, magistrado e escritor nascido na bicentenária cidade de Parnaguá, teresinense desde muito jovem; Cineas Santos, poeta, escritor, livreiro e professor legado por ele próprio a Teresina, vindo da sertaneja Caracol, no sopé da Serra das Confusões.

Poesia

A Teresina dos poetas é descrita a partir de Lucídio Freitas e dos compositores – que podem também ser poetas, por que não? – e complementa-se pela obra de Torquato Neto nos dois capítulos finais deste livro que é essencialmente referencial para historiadores, cientistas sociais e outros estudiosos acadêmicos que dele queiram tirar proveito.

Sem que se esteja somente exercendo a necessária arte da gentileza, é preciso reconhecer que o livro de Boson é bom de ler – tem um texto conciso, direto, escorreito. Há prazer em passear por suas 190 páginas – as últimas com referências bibliográficas que acrescentam à obra sua condição de um livro para se consultar e se estudar.

O percurso

Monsenhor Chaves, descritor de Teresina desde antes de sua atuação na cidade enquanto pároco da matriz de Nossa Senhora do Amparo, é quem abre o livro – numa espécie de desfile de textos que analisam a produção literária de autores sobre a capital do Piauí. Fazê-lo preceder os demais é, para além de um ato respeitoso de Boson Paes, justo reconhecimento do trabalho dele sobre a cidade – e não apenas como literato e historiador, mas como autor de obra fundamental na paisagem urbana, ao dar à Matriz do Amparo suas belíssimas torres.

Se Chaves descreve a cidade a partir de sua gênese e no seu desenvolvimento inicial, graças às suas pesquisas historiográficas fundamentais, Abdias Neves retrata sua sociedade no começo do século XX, no seu livro essencial Um manicaca, um romance que desenha o incipiente espaço citadino local, que se mostrará um tanto quanto congelado no tempo no final da primeira metade do mesmo século, quando descrito na crueza do romance Palha de Arroz, de Fontes Ibiapina.

Fontes descreve a cidade atravessada pelo temor da ditadura Vargas, aterrorizada pelos incêndios, que nas crônicas de H. Dobal (Roteiro sentimental e pitoresco de Teresina) é retratada com uma ironia condescendente, enquanto Tito Filho declara amor rasgado em crônicas – mesmo gênero usado por Cineas Santos.

Oton Lustosa olha-a pela visão dos seus personagens, algo que também faz Ribamar Garcia, só que pelo seu próprio olhar – algo presente na obra de Lucídio Freitas, para quem a cidade é um amor permanente e em Torquato Neto, que congelou o tempo quando falou da Pacatuba, a rua do Barrocão.

Assim, de texto em texto, o livro de Boson nos traz a possibilidade de viajar por muitas Teresinas, presentes no passado, que seu livro muito apropriadamente resgata, guarda e resguarda.

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(*) É advogado, procurador do Estado e mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Álvaro também é presidente do Instituto dos Advogados Piauienses. Publicado originalmente no portal piauihoje.com.

Therê – Guia Literário e Afetivo de Teresina é o novo livro do escritor Arnaldo Boson Paes.

A obra foi lançada no aniversário do autor, sábado passado (25/10), na presença de familiares, amigos e outros convidados.

Já no prólogo, Boson traz a explicação do título, gravado na Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês, do jornalista, professor e poeta Paulo José Cunha: “Therê, forma sincopada de Teresina, como Sampa é de São Paulo, Copa é de Copacabana, Floripa de Florianpolopis, Belô de Belo Horizonte”.

Em prosa e verso

O livro apresenta Teresina na visão de historiadores, romancistas, poetas, cronistas e compositores que interpretam a cidade desde a sua origem, em 1852, até os dias atuais.

Boson faz recortes das obras desses autores de modo a enquadrar a capital em cada momento retratado por eles:

“Nossa aventura literária levará o leitor à Cidade Nascente de Monsenhor Chaves, à Cidade Provinciana de Abdias Neves e à Cidade em Chamas de Fontes Ipiapina.  Continuaremos pela Cidade Pitoresca de H. Dobal e pela Cidade Amada de A. Tito Filho”.

E promete, ainda:

“Nossa jornada não para aí: ela guiará o leitor também pela Cidade Verde de Ribamar Garcia, a Cidade Marginal de Oton Lustosa, a Cidade Mutante de Cineas Santos. E também pela Cidade Poética de Lucídio Freitas e de outros poetas e, finalmente, pela Cidade Musical de Torquato Neto e de outros compositores”.

O autor

Arnaldo Boson Paes é baiano. Desde a adolescência mora em Teresina, onde deu prosseguimento aos seus estudos, fez-se magistrado, professor universitário e escritor.

Seu novo livro, publicado pela Bienal Editora, já foi distribuído nas principais livrarias de Teresina.

(Imagens: Jonathan Dourado)

Isabel Fonteles, governador Rafael Fonteles, Boson e Van Fernandes.

O autor e família.

Boson com a presidente da APL, Fides Angélica, e o professor Marcelino Leal.

Com o conselheiro Jaylson Campelo, apresentador da obra, e Fabrícia.